Existe um fio invisível que conecta os clubes do South Side de Chicago nos anos 80 às pistas mais celebradas do planeta e esse fio tem nome, personalidade e uma assinatura sonora inconfundível. Honey Dijon é muito mais do que uma DJ: é uma artista que encarnou a essência da cultura clubber em todas as suas camadas seja ela musicais, estéticas e humanas, e foi, ao longo de décadas, lapidando essa identidade até chegar ao patamar de referência absoluta da música eletrônica contemporânea.
Honey Dijon Boiler Room x Sugar Mountain 2018 DJ Set
Nascida em Chicago, cidade que não apenas inventou a House Music como a transformou em linguagem universal, Honey cresceu imersa em Soul e R&B dentro de casa, o mesmo DNA rítmico e emocional que mais tarde moldaria sua sensibilidade nas pistas. Ainda adolescente, já frequentava os clubes da cidade com a bênção dos pais, desde que o desempenho escolar não fosse prejudicado. Foi nesse ambiente que o encontro com o lendário Derrick Carter mudou tudo. Mentor e catalisador, Carter abriu as portas do underground de Chicago para Honey, expondo-a ao jacking house e ao techno de Detroit, os dois pilares que sustentariam toda a sua trajetória subsequente. Nas lojas de discos da cidade, como a mítica Gramaphone e Imports Etc, ela foi construindo o repertório e o gosto que se tornariam a sua mais poderosa ferramenta.

A mudança para Nova York no final dos anos 90 foi o segundo grande capítulo. Na cidade que nunca dorme, Honey encontrou a cena underground queer que sempre reconheceu como lar, um ambiente onde a pista de dança sempre funcionou como espaço de liberdade, de cura e de celebração da diferença. Foi lá que sua identidade artística ganhou mais profundidade e musculatura, tocando em bares como o The Cock e se conectando com os nomes que moldavam o circuito eletrônico americano da época, como Danny Tenaglia. Com o tempo, Berlim entrou na equação e o Berghain passou a ser um dos seus endereços fixos, consolidando sua posição no circuito global da e-music de forma definitiva.
Enquanto artista, Honey Dijon construiu uma discografia que reflete com fidelidade a amplitude de sua paleta sonora. O álbum de estreia The Best of Both Worlds (2017) apresentou ao mundo uma produtora capaz de sintetizar décadas de referências sem soar nostálgica algo que exige não apenas conhecimento, mas visão criativa. Em 2022, o álbum Black Girl Magic chegou como uma declaração política e artística de peso, reunindo nomes como Channel Tres, Eve e Pabllo Vittar uma escolha que não foi acidental, e que diz muito sobre o olhar atento de Honey para o Brasil e para a efervescência cultural que o país exporta. Mas foi a sua participação no álbum Renaissance de Beyoncé que catapultou seu nome para audiências muito além do universo clubber, um Grammy de Melhor Álbum Dance/Eletrônico, resultado de um trabalho que redefiniu o que significa ser DJ na era contemporânea.
A singularidade de Honey Dijon enquanto artista reside na recusa de qualquer tipo de fronteira sonora ou identitária. Disco, Techno, House, referências do Soul e do R&B, tudo convive nos seus sets com uma naturalidade que só é possível para quem internalizou essas influências ao longo de décadas de imersão. Assim como um bom cineasta constrói o roteiro de um longa-metragem com cuidado e intenção, ela arquiteta suas narrativas de pista com tensão, respiração e clímax, sabendo exatamente quando pressionar o acelerador e quando deixar a pista respirar.
“A jornada é o que faz uma grande festa. É como o sexo. Tempos rápidos, tempos lentos, dar às pessoas uma pausa para respirar e trazê-las de volta”, já declarou a artista, e quem já esteve em uma de suas apresentações sabe que essa não é apenas uma frase bonita, mas uma filosofia praticada à risca.
Para além da música, Honey Dijon é também uma figura incontornável no campo da moda e da cultura visual, curando playlists para desfiles da Louis Vuitton e estabelecendo uma colaboração própria com a Comme des Garçons. Mulher trans negra em um ambiente historicamente dominado, ela jamais fez disso um detalhe biográfico, mas sim o centro da sua narrativa pública sendo uma voz ativa e consistente nas discussões sobre visibilidade trans, gênero e pertencimento dentro da cultura eletrônica.

Neste mês, Honey Dijon retorna ao Brasil com a tour da Housenation, passando por São Paulo no dia 24, no Komplexo Tempo, e por Curitiba no dia 25, em uma apresentação inédita na Ópera de Arame. A escolha dos dois cenários não poderia ser mais acertada: de um lado, a estética industrial e imponente da Mooca como pano de fundo perfeito para o seu som urbano e pesado; do outro, a singularidade arquitetônica da Ópera, que transforma a noite curitibana em algo à altura de uma artista que há décadas eleva a experiência da pista ao status de arte. Para quem entende que música eletrônica é muito mais do que batida, é linguagem, presença e cultura, é uma oportunidade que não se vacila.
São Paulo — 24 de julho de 2026 (sexta-feira)
Local: Komplexo Tempo
Horário: a partir das 22h
Lineup completo: Honey Dijon, Affair DJs, Paulete Lindacelva, Renato Cohen e Solarce Brothers
Realização: Entourage Live, Syntese e Novo Affair
Ingressos: Ingresse – https://www.ingresse.com/house-nation-by-honey-dijon-sp/
Informações nos perfis no Instagram: @entourage.br, @snts.syntese, @novoaffair e @honeydijon
Curitiba — 25 de julho de 2026 (sábado)
Local: Ópera de Arame
Horário: a partir das 16h
Lineup completo: Honey Dijon, Chaouiche, Eli Iwasa e Due b2b Analu
Realização: Planeta Brasil Entretenimento e Seven Experience
Ingressos: Disk Ingressos – https://www.diskingressos.com.br/event/106
Informações nos perfis no Instagram: @planetabrasilentretenimento, @seven.exp e @honeydijon
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