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Um templo dentro de mim | Parte 1

Por [Jon Facchi/Redação] [Tati Blanco/Revisão][Maira Dill/Foto Capa]

Eu me lembro exatamente da primeira vez que pisei no Warung, foi em julho de 2010, um sábado clássico com o DJ inglês Paul Woolford e Leozinho & Paciornik fechando o main room. O duo brasileiro estava no auge, com um público enorme, eles eram reconhecidos por ‘’colocar qualquer gringo no bolso’’, através de uma mistura explosiva de Progressive House intenso do Leozinho com a percussão tribal e lisérgica do Pana. Todos sempre esperavam o Leo soltar ‘’Talk Like A Stranger’’ do Deepsky (Remix Nic Fanciulli), só para pular juntos! Naquela época eu já frequentava a cena regional desde 2007, seguindo nomes como Fabricio Peçanha, Daniel Kuhnen, Aninha, e claro, o argentino mais idolatrado por aqui naquele momento, Ricky Ryan. Clubes como Expresso em Blumenau, Jungle em Gaspar, Carambas em Indaial, Dreams Beach e Parador, ambos no estaleirinho, faziam parte dos meus finais de semana como um apaixonado por música eletrônica desde os 14 anos. 

Quando finalmente pude convencer um amigo (eu não tinha carro) a ir comigo no Warung, foi a realização de um sonho, era como chegar em Harvard depois de passar anos aprendendo a ser clubber em outros locais. Nesses 6 meses finais de 2010, pude ver Danny Howells tocando seu remix de ‘’I feel Love’’ da Donna Summer

Assisti impávido Richie Hawtin tocando seu maior clássico, Spastik as 11h da manhã em pleno feriado de independência, algo que me fez finalmente entender o que era techno. 

Mas o que eu mais aguardava era um tal Alexander Paul Coe, ou simplesmente Sasha, que veio no aniversário de 8 anos do clube. Sasha era o herói máximo que eu nunca tinha visto ao vivo. Seus vídeos de 2008 e 2009 no Warung de manhã me deixavam louco. 

Todos pulando junto dele enquanto manipulava a Maven Controll, sua própria controladora revolucionaria. Lembro de não dormir na noite anterior, Sasha iria iniciar meia noite e não havia hora para terminar. Se dizia nos grupos do Orkut, como o 128 bpm, que ‘’seria a noite para superar 2006’’, considerado o melhor set da história do clube até então. A energia na pista estava absurda, quando Sasha subiu no palco, eu não sabia como reagir, parecia um Deus chegando para catequizar toda uma geração de fanáticos. Infelizmente ele não estava em uma noite de plenas capacidades, ainda que a parte da manhã tenha sido incrível. 

Fiquei meio sem chão, a noite da década que não se cumpriu, bem na minha vez? Na semana seguinte uma postagem no facebook me chamou atenção: ‘’esqueçam essa noite, agora vamos aguardar o mestre das trevas: Hernán Cattaneo’’. Aquilo me pegou, porque eu era um tanto fechado, de poucas palavras e só usava roupa preta, então meio que aquela aura misteriosa bateu com minha personalidade. Quem havia postado era o Marcelo Harada, médico lá de Floripa. Ele fazia parte de uma geração de clubbers anterior a minha, junto de caras como o Gustavo Caon e a Leila Schewie. Essa turma foi pioneira em ir para Creamfields em Buenos Aires só para ver Hernan fazer os argentinos irem à loucura.  

SOLO HAY UNO

Eu já sabia quem era Hernan, claro, mas ainda não havia me aprofundado no seu som. Dia 29 de dezembro, eu e o Bruno, um grande amigo de infância, saímos do apartamento do pai dele em Itapema atrasados, fomos comer pizza e pegamos uma fila enorme de carros para entrar na praia brava (não existia a ponte ainda). Depois de muita ansiedade, entramos no Warung perto da 01h30. Era a última música do DJ China, chamada ‘“here Are You Now’” do Andre Lodemann. 

Uma das tracks mais perfeitas para começar um set, que ele usou no final do seu warm-up e todos acharam que já era o Hernan tocando. Até hoje o vídeo dessa transição me causa arrepios. Aquela camisa azul marinho sem estampas, o cabelo caindo por cima do rosto, parecia um ser celestial com uma luz vermelha sobre si e a face iluminada pela tela das CDJ em meio a escuridão. Lembro de ficar o tempo todo olhando para cada movimento e logo entendi o porquê de ser chamado de mestre das trevas. A vibe sinistra e hipnótica imposta sem rodeios era sublime.

Sasha era visto como o mestre do som progressivo espacial e lisérgico. John Digweed seguia uma linha sonora infernal e frenética. Hernan Cattaneo por outro lado abraçava o lado escuro da força. O DJ que todos conhecem hoje, mais sorridente e aberto com a pista, não existia naquela época, ainda que por vezes eu o vejo entrar nesse estado ‘’Darth Vader’’. Naquela noite tracks como ‘’Less Time’’ do Oxia, ‘’Triton’’ do Stephan Bodzin, ‘’Coronal Mass do Cid Inc (Luis Junior Remix), entre outras, faziam a pista cantar em devoção ‘’Ole, Ole, Ole, Hernan, Hernan’’. As vozes ecoavam pela pista se misturando com seu som de batidas constantes e eu não podia acreditar no que estava presenciando. Quando amanheceu, Hernan transformou repentinamente o clima para algo mais emocional e dançante. Às 06h30 em ponto ele solta ‘’Love Stimulation’’ do Humate com remix Tom Middleton. Eu ‘’acordo’’ e olho para os lados, vejo todos dançando em uma sincronia pura de sorrisos após uma noite inteira de obscuridade. Ali entendi quem era Hernán e sua capacidade de transformar climas, senti também que havia chegado o meu momento. Se eu nunca antes tinha tido um ídolo, agora tinha. 

Com 20 anos de idade pude perceber pela primeira vez o que era ficar viciado em outro ser humano e no que ele fazia com sua música na cabeça das pessoas. Hernán já tocava no Warung desde 2003, desde o início praticamente. Porém sinto que foi a partir desse set em 2010 que a história dele com o Templo mudou para sempre. Tanto é que a partir de então, ele passou a tocar todos os anos, às vezes duas vezes na temporada. Poderia acontecer o que fosse na cena, mas algo estava certo: a data de fim de ano de Hernan Cattaneo estaria anunciada. Um residente não declarado que era suportado por uma base de fãs pequena, porém muito especial. Pessoas que compartilhavam da mesma ‘’Cattamania’’ e que se tornaram amigos. No grupo chamado ‘’Sala 106’’, a missão era trazer cada vez mais e mais ‘’novos adeptos’’ ao que parecia ser um clube fechado de adoradores do ‘’Peluca’’. 

Eu nunca perdi um set dele no templo desde então e pelas minhas contas foram mais de 20. Quando me perguntam qual o melhor, sinceramente não consigo escolher, sempre falo: o melhor é sempre o próximo. Todo final de ano parecia que Hernan ‘’havia se superado’’, era o que todos nós falávamos pelo menos. Gosto de destacar 2011, pela manhã cheia de clássicos, 2014 por ser muito obscuro e com muitas faixas dos produtores Israelenses que mais tarde iriam simbolizar uma nova era na cena progressiva. 

O primeiro all night long em 2017 foi muito emblemático, porque nenhum headliner tinha feito isso. O primeiro set no novo Warung em 2024 também foi especial; ‘’agora sim o Warung voltou’’. Mas, repito, com o passar dos anos aprendi que não era justo ficar tentando achar ‘’o melhor set’’, todos sempre tiveram algo especial para se destacar. Quem lembra de ‘’Time’’ em 2012, ou do remix de Carl Craig para ‘’Your Love  will Set You Free’’ do Caribou em 2015, ou ainda o breakbeat de Song Of Loss do Apparat. Muitas memórias, daria outro review só de destaques. Quem quiser ouvir uma playlist de tracks que ele tocou no clube desde 2010. Abaixo: 

The Last Dance Forever. 

Os boatos de que o Warung iria fechar passaram a se tornar comuns já por volta de 2012, quando iniciou as obras de terraplanagem no terreno ao lado. Eu ficava intrigado e triste só de pensar, frequentava o clube a 2 anos, tinha 22, e uma ansiedade de viver tudo aquilo que acompanhava quando menor.  Queria presenciar os famosos sets de catarse coletiva pelas mãos dos DJs mais lendários do mundo. 

Foto: Fabio Mergulhão/ Sasha Carnaval 2006, estreia

Achava que isso já havia acontecido nos anos anteriores e que eu havia perdido a ‘’era dourada’’ dos long sets que não tinham hora para acabar. Peguei o final dessa fase que foi até setembro de 2011. Onde após a trágica enchente no vale do Itajaí, fez as autoridades ficarem em cima de todas as normas e horários de eventos. Os anos foram passando, o clube e o público se adaptaram com a ideia de encerrar às 7 da manhã, às vezes às 06h. Para quem viveu a época do ‘’sem horas para acabar’’ era frustrante, mas quem entrou depois parecia normal e incrível encerrar com o sol nascendo.  A cena também se transformou e novos nichos sonoros se tornaram trends globais. A curadoria do clube sempre esteve muito atenta, conseguindo se antecipar a diversos ‘’booms’’ de estilos.

Eu sempre admirei isso, não ficar preso a nomes do passado, ainda que alguns permaneceram voltando independente do contexto. Posso citar o exemplo do Solomun, que quando ainda era um nome pequeno em 2009, o Warung já lhe dava o main room e importância. Em 2013, enquanto John Digweed trazia sua noite da Bedrock e apresentava Guy J ao público como convidado, no Garden rolava um duo italiano em ascensão por fazerem o que parecia ser um novo estilo de som, que mais tarde seria chamado de Melodic House, era Tale Of Us. Mais um exemplo de como o Warung estava na vanguarda, absorvendo e ajudando a lançar novos artistas ao estrelato. 

A última travessia 

Imagina você passar aquele morro em meio a mata atlântica entre a praia de cabeçudas e o canto do morcego, sabendo que seria pela última vez, não na praia brava claro, mas a última vez que ao final da Av. José Medeiros Vieira, 350, se encontra a casa de madeira que se entrelaça na floresta. 

É um sentimento muito estranho, eu entrei ali a primeira vez em uma madrugada de 2008, tinha 18 anos, já sabia o que era o Warung e sonhava em um dia frequentá-lo. Sai de Brusque depois de uma formatura com um amigo e acabamos parando em frente ao Templo. Ali de fora, meu corpo tremia só pelo fato de estar no mesmo lugar onde via fotos e vídeos na internet. Era possível ouvir o zumbido dos graves da música e gritos na virada. Ficamos ali um tempo e fomos embora, não tinha dinheiro para entrar, mas eu estava feliz, tinha estado na frente do local que mais vibrava minha imaginação. Anos depois descobri que naquela noite havia se apresentado 16 Bit Lolitas, um dos projetos que mais me ganharia musicalmente e que justamente naquela época estavam lançando o álbum Warung Brazil 001 – CD duplo compilado que se tornou um marco na indústria e também do gênero Progressive House

Se eu e meu amigo tivéssemos entrado no clube naquela noite, teríamos ouvido ao vivo o set do álbum que hoje guardo com tanto carinho em minha casa. Mas não existe o ‘’e se’, e sim o que de fato vivi depois nesse lugar, disso não posso me queixar, a partir de julho de 2010, pude experienciar e participar ativamente da história do meu local de coração, que faz parte de quase metade da minha vida. Ouvi com atenção, aprendi sobre respeito ao warm-up, entendi que os grandes DJs são grandes porque realmente entregam algo diferente. E claro, me emocionei assistindo os maiores nomes do mundo, não uma, mas várias vezes, de vários estilos, de Progressive a Techno, de Mininal a Deep house.

A fábula do escorpião. 

O mundo vem passando por transformações profundas, onde os livros de história irão destacar as primeiras décadas deste milênio como definitivas para o que a humanidade viria a se tornar, sabe-se lá o que. Ainda que não pareça, a cena eletrônica está apenas no seu início, são aproximadamente 30 anos onde DJs se tornaram conhecidos globalmente se transportando semana após semana para distintos locais. Entretanto, acredito que ninguém imaginaria nos anos 90 que a cena de clubes iria derreter tão rápido.  Os motivos se repetem por todos os lados, onde fenômenos imobiliários e de gentrificação de áreas antes subutilizadas ocorrem em todas as capitais, metrópoles e regiões litorâneas. Olhando para nosso país, quantos clubes desapareceram dos anos 2000 até agora? Só em Santa Catarina foram dezenas. A praia brava vem passando pela mesma situação da barra sul nos anos 2000, se tornando vítima do próprio sucesso. O preço que se paga sempre pesa em cima do lado menos organizado, do lado menos politizado e menos capaz de mobilizar a opinião pública.

 É fato que a música eletrônica ainda tem um longo caminho para provar o que ela já produz; movimentos econômicos capazes de mudar estruturas sociais locais. Porque isso não é visto de forma mais ampla? Porque não é protegido? É claro que o poder econômico em um mundo regido pelo curto prazo sempre vai falar mais alto ante os benefícios sociais e turísticos que a cena eletrônica é capaz de gerar, mesmo sendo uma contradição um tanto grotesca. Se todos querem viver na praia brava pelo seu lifestyle e vida noturna badalada, porque permitem que se destrua o motivo inicial? Mas, novamente, o destino de um bairro é traçado por alguns interesses financeiros e nada há o que fazer nesse momento, se resiste enquanto há disposição. Nesse ponto, eu realmente preciso enaltecer o quanto os sócios do Warung e em especial o Gustavo Conti, que é dono da área, resistiu. O assédio de anos e anos, com cifras viscerais, faz qualquer um balançar. 

O Warung durou tempo suficiente para que pais pudessem levar seus filhos! Essa é com certeza a maior vitória nesses 24 anos. Poucos lugares no mundo podem se orgulhar de ter essa transmissão geracional com a mesma qualidade e paixão.  A fábula diz que o escorpião pediu ao sapo para atravessar o rio em suas costas. O sapo intrigado perguntou? Mas você não irá me picar? O escorpião diz que não, só quer uma ajuda para chegar ao outro lado. Contrariado, o sapo aceita. No meio da travessia, o escorpião espeta seu ferrão venenoso nas costas do sapo, que imediatamente questiona. O que você fez? Agora nós dois vamos morrer afogados. O escorpião responde: desculpe, é a minha natureza. O Warung carregou a praia brava, e agora recebe a picada do escorpião.

Continua…Parte 2 em breve!

It’s all about groove