Nos últimos anos, parte da house music voltou a olhar para elementos que durante muito tempo ajudaram a definir a experiência da pista: groove, musicalidade, leveza e conexão emocional. Dentro desse movimento, o francês Baron vem construindo uma identidade própria ao combinar referências do french house, indie dance e house melódica em produções que priorizam atmosfera, energia positiva e impacto sensorial.
Esse direcionamento aparece de forma bastante clara em seu novo lançamento: o remix oficial de “Lovely Flight”, clássico de Didier Sinclair lançado originalmente nos anos 2000 e agora relançado pela Kitsuné. Em vez de transformar a faixa em uma versão agressiva ou excessivamente nostálgica, Baron preserva o espírito emocional da original enquanto aproxima sua construção de uma linguagem mais profunda, imersiva e conectada às pistas atuais.
Com lançamentos por labels como Rose Avenue, Monaberry, Get Physical, AZZUR e a própria Kitsuné, além de suporte frequente de nomes como Carl Cox, Pete Tong, Jamie Jones, Bedouin e RÜFÜS DU SOL, o artista francês vem consolidando uma proposta artística baseada em groove, elegância e sensação humana dentro da música eletrônica contemporânea.
Nesta entrevista para a GROOVE, Baron fala sobre a nova releitura de “Lovely Flight”, a influência da cena francesa em sua trajetória, o atual momento da cultura clubber e os próximos passos do projeto.
Olá, Baron! Obrigado por falar com a gente. Sua música transmite uma sensação muito ligada à leveza e conexão emocional. Em que momento você percebeu que essa seria a essência central do seu projeto?
Acho que isso aconteceu de forma bastante natural. Sempre fui atraído por músicas que, acima de tudo, despertam sensações — músicas capazes de fazer as pessoas se movimentarem, escaparem da rotina ou simplesmente se conectarem com o momento.
Mesmo quando produzo uma faixa pensada para a pista, procuro manter algo humano nela: um groove, uma melodia, uma textura ou uma emoção à qual as pessoas possam se apegar.
Muito se fala sobre o retorno de uma house music mais “humana” e calorosa nos últimos anos. Como você enxerga esse movimento dentro da cena atual?
Acredito que as pessoas estejam buscando novamente algo mais orgânico. Depois de um período em que a música eletrônica, às vezes, se tornou muito agressiva, existe uma vontade real de reencontrar o groove, a alma e a musicalidade.
A house music sempre esteve ligada à conexão humana. É uma música sobre reunir pessoas, compartilhar energia e viver uma sensação coletiva na pista de dança. Sinto que essa abordagem mais calorosa está voltando com força hoje em dia, e acho isso muito bonito.
‘Me Gusta’ é seu grande sucesso da discografia, lançada em 2024 pela AZZUR
A escola francesa de house continua sendo uma referência importante para artistas até hoje. Quais elementos dessa cultura ainda influenciam diretamente a forma como você produz e pensa música?
A French House sempre teve esse equilíbrio muito particular entre elegância, groove e simplicidade. Ela pode ser direta, mas ao mesmo tempo extremamente refinada. Isso influenciou muito a maneira como eu enxergo a música.
Também existe um senso muito forte de melodia e textura na música eletrônica francesa. Não se trata apenas da batida; trata-se da cor do som, da emoção por trás de um acorde, da forma como um sample ou uma linha de baixo pode criar instantaneamente uma atmosfera.
Os artistas da cena francesa mostraram que a música eletrônica pode ser, ao mesmo tempo, música de pista e algo muito estiloso, visual e quase cinematográfico. Isso é algo que certamente carrego comigo quando produzo.
“Lovely Flight” carrega um status especial dentro da house music dos anos 2000. Como surgiu o convite — ou a conexão — para revisitar essa faixa oficialmente pela Kitsuné?
“Lovely Flight” é uma daquelas músicas que carregam uma memória emocional muito forte para muita gente. Ela pertence a um período da French House que ainda hoje parece muito especial.
A ideia era trazer a faixa de volta de forma respeitosa, mas conectando-a às pistas de dança atuais. A Kitsuné parecia o selo perfeito para isso, porque sempre soube unir música, estilo e cultura com um toque muito francês.
Para mim, foi um enorme prazer, mas também uma responsabilidade, revisitar um disco tão importante.
Ao trabalhar em um remix de um clássico, existe uma linha muito delicada entre homenagem e atualização. Qual foi o maior desafio para encontrar esse equilíbrio em “Lovely Flight”? O que você quis provocar com essa releitura?
O maior desafio foi preservar a alma da versão original enquanto trazia uma nova energia para ela. Eu não queria exagerar na produção nem torná-la agressiva demais. A faixa original possui uma elegância e uma simplicidade emocional que era importante manter.
Ao mesmo tempo, eu queria que minha versão soasse atual, mais profunda e imersiva — algo que funcionasse em um ambiente de clube moderno, especialmente em momentos mais balearic, ao pôr do sol ou tarde da noite.
O que eu queria criar era uma sensação de nostalgia, mas sem ficar preso ao passado.
A Kitsuné teve um papel muito importante na cultura musical e estética dos anos 2000 e agora vive uma nova fase dentro da música eletrônica. O que representa pra você fazer esse lançamento ao lado da gravadora?
A Kitsuné sempre representou mais do que apenas uma gravadora. É uma referência cultural que envolve música, moda, estética e estilo de vida. O selo possui uma identidade muito forte e uma conexão real com a cena eletrônica francesa.
Lançar essa faixa pela Kitsuné faz muito sentido, porque “Lovely Flight” também faz parte dessa herança da French House. Existe uma ponte natural entre a história da música, a identidade da gravadora e o som que eu quis trazer para os dias de hoje. Para mim, é o selo certo, no momento certo e no contexto certo.
Seu som hoje transita naturalmente entre house, indie dance e referências mais melódicas, mas sempre mantendo groove e acessibilidade. Você sente que as fronteiras entre essas vertentes estão ficando cada vez mais fluidas?
Sim, completamente. Acho que a música mais interessante atualmente costuma existir justamente entre os gêneros. Quando estou no estúdio, não gosto muito de pensar em categorias.
Claro que existem referências — house, indie dance, melodic, afro, French Touch — mas o mais importante continua sendo a sensação que a música transmite. Se o groove funciona e a emoção está presente, o gênero acaba se tornando algo secundário.
Também acredito que o público da pista esteja mais aberto a isso hoje. As pessoas querem viver uma jornada, e não apenas ouvir um único tipo de som.
Depois de “Lovely Flight”, quais são os próximos objetivos e direções que você pretende explorar artisticamente nos próximos meses? Obrigado!
Quero continuar desenvolvendo esse equilíbrio entre groove, emoção e energia positiva. Estou trabalhando em novas músicas que aprofundam ainda mais essa proposta: faixas para a pista, mas com melodia, calor humano e uma atmosfera marcante.
Também há colaborações e lançamentos muito empolgantes a caminho, e quero continuar construindo um som que seja elegante, humano e conectado à pista de dança.
Para mim, o objetivo é continuar crescendo de forma natural, lançar músicas que permaneçam fiéis a quem eu sou e criar momentos que as pessoas possam realmente sentir — seja descobrindo minha música em um clube, em um festival ou simplesmente ouvindo sozinhas em casa.
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