Poucas coisas permaneceram iguais na música eletrônica brasileira desde que Paula Chalup começou sua trajetória profissional, em 1996. Mudaram os clubes, as tecnologias, as dimensões dos festivais e até a maneira como música, imagem e performance passaram a dividir espaço dentro de um evento. Paula acompanhou boa parte dessas transformações de dentro da cabine e, aos 30 anos de carreira, passou a levar essa experiência acumulada para um território que amplia sua atuação para além da discotecagem.
Hoje, ela integra o time da Visualfarm, estúdio brasileiro dedicado à criação de projetos que combinam arte e tecnologia por meio de recursos como projeções mapeadas, lasers, espaços imersivos e shows de drones. Dentro da empresa, Paula atua principalmente na aproximação dessas possibilidades com um universo que conhece há três décadas: festivais, artistas e o mercado da música eletrônica.
A posição cria uma ponte direta entre sua história e o trabalho que desenvolve atualmente. Paula começou profissionalmente no Hell’s Club, foi uma das idealizadoras da festa Combustível, no Lov.e, onde também atuou como DJ residente desde o início, e, ao longo das décadas seguintes, passou por clubes como D-EDGE e Clash, além de festivais e pistas dentro e fora do Brasil. Essa convivência prolongada com diferentes formatos de eventos se tornou, agora, uma ferramenta para pensar como as tecnologias da Visualfarm podem ser incorporadas justamente a esses ambientes.
“O meu objetivo é colocar isso no mercado da música eletrônica”, explica Paula. Sua atuação envolve a curadoria e o desenvolvimento comercial de projetos, funcionando como um elo entre as demandas de festivais e a estrutura criativa e tecnológica da Visualfarm. Na prática, isso pode significar facilitar desde a criação de ações com drones, lasers e mapping até aproximar os produtores e profissionais do estúdio de festivais que buscam desenvolver experiências visuais próprias com áudios imersivos.
A proposta ganha outra dimensão no Visualfarm Gymnasium, espaço permanente inaugurado em São Paulo em maio de 2025. Com cerca de 2.000 m², o local reúne projeções mapeadas, cenografia robótica, recursos de realidade virtual e inteligência artificial, instalações audiovisuais e outras tecnologias dentro de uma mesma estrutura. O Gymnasium é apresentado como o primeiro laboratório permanente de artes imersivas da América Latina.

É justamente esse caráter integrado que Paula pretende aproximar da música eletrônica. Em vez de pensar separadamente em som, iluminação, projeção ou cenografia, o espaço permite desenvolver uma experiência considerando diferentes estímulos desde sua concepção. Para alguém que passou grande parte da vida profissional observando a relação entre DJ, música, pista e ambiente, a possibilidade abre uma nova frente de trabalho.
Essa aproximação também encontra respaldo em uma pesquisa que Paula já desenvolvia antes de chegar à Visualfarm. Nos últimos anos, a artista passou a trabalhar com áudio imersivo e espacialização sonora, incluindo experiências com Dolby Atmos. A mudança ampliou sua maneira de pensar a música para além dos tradicionais canais esquerdo e direito e aproximou seu trabalho de uma lógica em que o próprio espaço passa a fazer parte da composição da experiência. “Eu trabalho com áudio, então tem tudo a ver com uma experiência 100% dentro do visual”, explica. “O que eu faço é linkar minha experiência de áudio com tudo o que eles já construíram até hoje.”
A mesma busca por experiências mais imersivas orienta também o RASTRO, novo projeto artístico que Paula desenvolve atualmente e que marca uma fase mais profunda e introspectiva de sua trajetória. A proposta é combinar elementos de deep house, paisagens orgânicas, espacialização sonora e ancestralidade, partindo de sua relação atual com a natureza e da vontade de traduzir essa experiência em música, imagem e presença.
É uma “mudança de posição” que não significa abandonar a cabine. Paula continua atuando como DJ e produtora e chega a 2026 celebrando 30 anos de carreira, três décadas depois de iniciar profissionalmente em uma São Paulo que ainda estruturava sua cultura clubber. O que muda é o tamanho do campo sobre o qual essa experiência passa a ser aplicada.
Vale destacar ainda que Paula acabou de lançar um novo trabalho com duas faixas voltadas diretamente à pista: o EP Present Pulse, pela DECRETO Techno. O título faz referência à ideia de seguir presente e ativa na música eletrônica mesmo após 30 anos de carreira.
Se durante boa parte dessa trajetória seu trabalho esteve concentrado em construir a experiência musical da pista, agora Paula começa a participar também da discussão sobre como essa pista pode ser vista, ocupada e transformada por diferentes tecnologias. Na Visualfarm, áudio, imagem, espaço e tecnologia passam a fazer parte de uma mesma conversa, e os 30 anos acumulados dentro da música eletrônica se tornam justamente a base para aproximar essa conversa de quem produz, toca e frequenta festivais.
It’s all about groove