Por [Jon Facchi/Redação] [Tati Blanco/Revisão]
O mês de abril de 2026 ficará marcado pela passagem de Laurent Garnier pelo Brasil depois de 8 anos. Em 2018, ele havia feito no Warung um dos sets mais espetaculares que eu já vi, deixando no tempo uma base de fãs que vibrou com o anúncio de seu retorno. Com o club chegando ao seu final, um dos meus maiores medos era de que eles não conseguissem trazê-lo novamente, ainda que Laurent tenha se apresentado poucas vezes no club nesses 23 anos, foram 4 ao todo e todas elas tiveram espaços de tempo e foram muito marcantes para cada geração de clubbers: 2008, 2011, 2018, 2026.
Na minha opinião, deveria ser ele ou Hernan Cattaneo no encerramento da casa e para minha felicidade, os dois nomes foram selecionados na reta final. Para quem não o tinha visto ainda, ficou muito claro o porquê da curadoria deixar seu nome entre os últimos a pisar na Praia Brava.

Uma curiosidade: tanto Hernan Cattaneo quanto Laurent Garnier relembram em suas biografias, com muito carinho, o convite para as festas de encerramento do Yellow Club, em Tóquio, no ano de 2008. Ambos são DJs fundamentais por lá e possuem fãs fervorosos; agora, quase 20 anos depois, eles revivem essa experiência no Warung. “É como se a história se repetisse em outro canto do mundo.”
Essa tour pelo Brasil começou impressionando São Paulo, com um set que deveria durar 3 horas, mas que se estendeu por 5 até o amanhecer, causando uma repercussão como não se via há tempos na capital. Ele também passou pelo Rio de Janeiro, algo que daqui a alguns anos o público local compreenderá com maior dimensão. Vou focar em sua passagem pelo Warung, pois foi onde testemunhei o lendário DJ e produtor francês naquela que pode ter sido sua última vinda ao nosso país. Em 2025, Laurent anunciou que a partir deste ano, realizaria apenas cerca de 10 apresentações por temporada, focando em clubes menores e cenas onde acredita que sua música realmente faz sentido.

A Identidade de Laurent Garnier
Quando anunciado no dia 18 de abril foi uma data em que os camarotes esgotaram em menos de 1 hora, muito pelas pessoas acharem que seria a última data, Com os ingressos praticamente esgotados, a noite prometia uma pista densa e vibrante, unindo veteranos a uma nova geração ansiosa para testemunhar o homem conhecido como o ‘DJ dos DJs’. Em uma cena que se renova em ciclos tão velozes, é compreensível que, após um hiato de oito anos, parte do público não dimensionar exatamente a importância de quem estava ali´, porém é inegável não destacar que Laurent Garnier é a personificação dos pioneiros que ergueram os pilares de tudo o que vivemos hoje, disso é muito mais eu vou destacar e te contar ao longo do review.
O line-up de sábado reuniu nomes de peso, com Junior C, Gui Boratto e Leo Janeiro comandando o Garden, enquanto a lenda Mau Mau e Eli Iwasa ficaram responsáveis pelo warm-up para o Laurent. A escolha de Eli não poderia ser mais justa, ela é próxima de Garnier desde os anos 90, havia entre eles uma relação de confiança absoluta sobre como a pista seria entregue.
Pude presenciar os 30 minutos finais de Mau Mau, que à meia-noite já mantinha a pista lotada com um som de altíssima qualidade, deixando o clima impecável para que Eli conduzisse o público até as 03h. Paralelamente, Gui Boratto apresentava no Garden um set inovador, intercalado com clássicos de sua carreira, em uma atmosfera favorecida pela vibe única e sonoridade perfeita daquela pista auxiliar.
Faltando dez minutos para o horário previsto, Laurent já assumia o comando, ele chegou ao club com três amigos e seguiu direto para a cabine, evidenciando que não éramos os únicos tomados pela saudade. Neste review, pretendo focar menos na técnica das faixas e mais no impacto profundo e na memória afetiva de sua apresentação.
Como esperado, ele iniciou reduzindo a intensidade, aproveitando um sistema de som alto e cristalino. A primeira hora de set foi uma verdadeira aula de auto-warm-up, construindo uma atmosfera com pianos límpidos, baixos com nuances de jazz e levadas tribais que retornaram ciclicamente durante a noite. Laurent então abriu sua “caixa de ferramentas”, manipulando efeitos e buscando breaks em momentos estratégicos para, em seguida, fazer a pista explodir com suas tracks de assinatura única.

Garnier atravessa o espaço-tempo de uma forma natural, tendo sua capacidade técnica e feeling como aliados. Sabe quando você vê alguém exercendo sua arte não como um trabalho, mas como um meio do próprio ser? A razão de sua existência é estar ali, expondo suas experiências através de sua habilidade assustadora. Às 05h da manhã o set estava rápido, dançante, a pista enlouquecida e totalmente entregue e vidrada em sua performance. Às 06h30 veio a faixa mais esperada da noite ‘’The Man With The Red Face’’. Esse nome foi escolhido de uma forma engraçada, após o saxofonista solicitado para compor (Laurent iria se apresentar em um festival de Jazz na França, então precisa de uma música para o mesmo), ficar com o rosto todo vermelho de tanta energia colocada na criação dessa melodia tão icônica. Essa e outras histórias estão no seu livro Electrochoc. E o que falar de ‘’Solitary Daze’’ do Maceo Plex? Os vídeos falam por si, uma faixa com a cara dele.

A Experiência e o “Efeito Garnier”
Mal sabíamos mas neste momento, com o dia amanhecendo, ainda estávamos na metade do set. Com o sol do lado de fora, a sensação era de perfeição; sem o calor excessivo do verão ou o frio intenso, o tempo simplesmente parou e uma nova festa se iniciou. Farei aqui uma digressão que foge da análise técnica, mas que é o reflexo direto daquela experiência.
“Todo mundo que começa a sair para eventos eletrônicos, invariavelmente acaba experimentando vários estilos, geralmente sons mais acessíveis e comerciais, depois com o tempo aumenta a complexidade sonora e descobre estilos nichados através de ótimos DJs não tão conhecidos. Depois o padrão é acabar escolhendo um desses estilos como o seu favorito e ali se firmar tornando-se fã de grandes DJs que o representam. Nesse momento, é muito provável que seu ídolo estará entre nomes como: Sven Vath, Hernan Cattaneo, Sasha, John Digweed, Richie Hawtin, Dubfire, Nick Warren, Carl Cox, Chris Liebing, Guy J, Ben Klock, Dixon, Ricardo Villalobos, e não muitos mais. Isso pode perdurar por anos e em algum momento você pode achar que chegou ao final da linha. ‘’Eu já conheço todos os mestres e sei qual é o meu favorito… Está feito, agora sou um clubber formado, graduado e doutorado’’.
Então, certo dia acontece algo que eu chamo de ‘’Efeito Garnier’’. Claro, é preciso ter a sorte de vê-lo ao vivo, algo muito difícil, especialmente nos últimos anos. Eu tive a sorte grande de assistir em 2018, onde ocorreu esse choque comigo, onde criei essa expressão para tentar explicar às pessoas do que se tratava. Obviamente agora nessa despedida dele no Templo o Garnier Effect voltou, mais forte do que nunca.
Mas o que é isso? O que ele causa é o seguinte: para além do que você sabe e domina sobre um estilo, há uma porta trancada e distante, se você a abrir (pode ser que nunca aconteça), tudo aquilo que pensava que sabia de música eletrônica se dissipa como num estalar de dedos.
Viver uma experiencia ‘’Laurent Garnier’’ gera uma sensação devastadora: há de que não importam mais as classificações, os gêneros, as categorias, tudo aquilo que você cultiva com tanto afinco, e às vezes até perde tempo defendendo com altivez.
Após prestigiar um set dele, é como se tudo voltasse ao início, quando a inocência de não saber muito bem o que é cada coisa fazia você se encantar por algo novo a cada semana.
Laurent Garnier é o marco zero! a volta no loop que te fará questionar suas convicções, te puxando para o início do jogo, só para caminhar tudo novamente sem preconceitos e de braços abertos. Não é à toa que ele é eleito entre seus pares como o ‘’DJ dos DJ’s’’, isso não é um adjetivo jogado ao vento só por ele ser um monstro sagrado atrás da pick-ups, mas sim por sua abrangência sonora que sintetiza o que a cena eletrônica pode representar como um todo. Vou ser ilustrativo: se alienígenas esbarrar neste pálido ponto azul e nos solicitassem a apresentar quem são as pessoas que melhor representam tudo que somos capazes de criar, ou seja, ‘’traga-me seu melhor cientista, o maior representante do futebol, do cinema, das artes, da arquitetura’’, e assim por diante, quando chegasse a vez da música eletrônica de pista, também conhecida como Dance Music, é consenso imediato que o enviado seria Laurent Garnier. É ele, afinal todos se sentem representados sempre que ele sobe ao palco. O santo graal dos DJs, os pós doc, o ser capaz de reunir todas as tribos, o representante máximo da cultura de pista, da arte de movimentar pessoas através da música. Os fãs sonham em se tornar seus ídolos, em tocar como eles tocam, no caso de Garnier, ninguém jamais se atreve a imaginar querer fazer o que ele faz. Seu envolvimento através da música que apresenta é algo inalcançável. Voltamos.”

Às 08h, Laurent Garnier convidou Eli Iwasa para um b2b, retribuindo com elegância a gentileza recebida em São Paulo, quando ela o permitiu estender seu set por mais duas horas. A partir das 09h, após o término do b2b, testemunhei um dos momentos mais singulares que eu já vivi nessa vida, não apenas como clubber. Laurente abandonou o laptop, sinalizando que o set planejado já estava cumprido e devidamente eternizado, o que se seguiu foi o acesso ao seu “baú de ouro”, uma coleção de clássicos guardada por anos para ocasiões raras. Laurent já não estava mais ali como um artista; era como um amigo, como se estivesse tocando na sala de sua casa para os poucos privilegiados que decidiram ficar. Mesmo visivelmente cansado, ele destilava classe e personalidade, dançando e assumindo o controle total da atmosfera.
A carga emocional ficou mais evidente às 09h30 com a execução de “Everything Its Right to Place’’ do Radiohead (Andi Muller remix), faixa que Laurent toca desde 2008 pelo menos, segundo o próprio Andi. O break dela parecia infinito, como o símbolo estampado em sua camiseta. Garnier olhava por baixo dos olhos, como quem armava sorrateiramente, um leve sorriso, quando já pensávamos em pedir mais uma, ela simplesmente volta com toda energia. A reação das pessoas foi algo impossível de descrever, tanta energia simplesmente ressurgindo do nada. Que momento.
Alguém pode pensar que tocar Originais do Samba foi porque queria agradar os brasileiros, não! O que ele estava tocando eram faixas de seu acervo pessoal, faixas que nunca saem da case. Ele estava mostrando seu lado mais íntimo, abrindo a casa para nossos corações, num sentimento: “É isso que eu amo, porém, não é em qualquer lugar e contexto que vou tocar, precisar haver sentido’’. Quando a pista está completamente em suas mãos é possível fazer isso. E você DJ, não tente copiar, não tente fazer algo assim só porque foi incrível e viralizou no mundo todo. Garnier havia parado o set 2 vezes já, ele não iria tocar essas faixas, já estava satisfeito, mas, já que não o deixamos sair, foi a linha cruzada para ele trazer aquelas músicas, foi um momento único que ele identificou e eternizou, não estava programado, os franceses historicamente conhecem muito de música brasileira, a geração dele, do vinil, ainda mais que muitos de nós.
Outro grande momento foi o vocal inigualável de Donna Summer em um edit para “Last Dance”, bem o nome da música já diz tudo. Laurent cantava junto e nós batíamos palma como em um show de banda. E Jaguar então? Um clássico que sempre quis ouvir no clube.
Em resumo, Laurent passeia entre momentos mais house, sons tribais, vocais magnéticos, indie, Uk Garage e techno progressivo, aliás as faixas mais viajantes são marcas registradas dele, e são suas melhores produções, é por isso que ele consegue agradar públicos de vários estilos.
Ver o Warung ultrapassar as 10h da manhã é um evento raro, remetendo a marcos históricos como Keinemusik (2023) e Dubfire (2013). Foi o resgate de um Warung “como nos velhos tempos”, permitindo que a nova geração vivesse a essência que tornou este club o favorito dos maiores DJs do mundo.

Ás 10h45, a pista parecia que estava no modo “nunca mais vou sair daqui’’, Garnier olhou para aquilo tudo, Eli vem e fala pra ele algo no ouvido, ele se dirige mais uma vez para a CDJ, roda por suas músicas, seleciona e aperta o play. Os primeiros segundos foram uma mistura de felicidade transbordante com certa incredulidade. É isso mesmo que estamos ouvindo? Ninguém jamais apostaria que algum dia iríamos ouvir Nirvana no Warung. Mas enquanto acontecia e todos nós, todos pulavam como em um show punk de rock, fazia muito sentido. É claro, aquelas viradas de bateria, aquela linha de baixo, pareceu tão óbvio, mas não era até uma mente brilhante ter a sacada e coragem de tocar. O que mais eu posso dar para essas pessoas? Só o fato dele ter essa música no pen drive já diz muito sobre quem é Laurent Garnier. Pode ser que ela estivesse ali por anos, só aguardando o momento certo para ser jogada e causar o que causou. Centenas de vídeos postados nos mais diversos portais pelo mundo, pessoas que nem são da cena eletrônica comentando. Com certeza o Warung nunca esteve tão em evidência na cena mundial como nesta última semana. Era o final que esse clube merece, atingindo mais um dos tantos pontos altos que ele nos proporcionou por mais de 2 décadas.
Muitas pessoas falaram que poderia ter fechado ali mesmo, e poderia, todo o esforço de reconstruir, o alto investimento, os riscos, as críticas de que “não era mais o mesmo’’ tudo valeu a pena e se consolidou nessa música final com todos tirando energia sabe-se lá de onde. O último ano do Warung vem sendo algo realmente a altura da sua história, desde aquele Guy J quase sold out, aquela manhã histórica com Guy Gerber, aquele atropelo mental de Sasha & John, um super set de Deep Dish, um b2b épico de Hernan e Baumel, Mano Le Tough … enfim, tudo tem sido como deveria. Abaixo um compilado de faixas do set.
Forever Untold (Satoshi Fumi Remix) de Ian O’Donovan
Laurent Garnier – Sake Stars Fever
Jim Rivers – Cosmos
Laurent Garnier – Reviens la Nuit
Relax (New York Mix) de Frankie Goes to Hollywood
Footprints de Kaz James
Verdure de Paul Nazca
Dreamer de Jules Wells
The Rebirth de Oniris
Houston (We Have a Problem) [Thommy Davis & Greg Lewis Original Demo] de DJB510
Carambolage – Santos
Waiting 4U – Squal G
Uzoamaka (Dixon Update) · King Britt pres. Oba Funke
Space Like Me – Alex Mendes
Fitzherbert – Short Trip To Space
Sylvester – You Make Make Me Feel Mighty Real (Morales Remix)
Albert Marzinotto & Kelli-Leigh – More Beats More
Love (Tiger Stripes Remix)
DJ Rolando – Jaguar
Code 718 – Equinox (Henrik Schwarz)
Vamos falar de legado? O que Laurent Garnier nos trouxe foi algo transformador, como disse certa vez Albert Einstein; “uma mente expandida jamais voltará a seu estado original.’’ Todos saíram do Warung maiores do que entraram, com um novo nível de exigência, com a régua mais alta, onde a rebeldia adolescente dos anos 90 de “Smells Like Teen Spirit” nos foi apresentada e agora, nada será como antes.
It’s all about groove