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Celebrando 30 anos de carreira, Pic Schmitz lança Smooth, sua própria gravadora

Consistência é a palavra-chave da carreira de Pic Schmitz. O DJ e produtor, nascido em Porto Alegre (RS), soma três décadas de trajetória na música.

Com mais de 20 milhões de streams em sua discografia, Pic Schmitz tem identidade sonora marcada pela house music, sabendo administrar com equilíbrio uma curadoria que une tradição e inovação.

Mostrando que está atento às tendências atuais – e sabe como utilizá-las a seu favor, o DJ e produtor lança sua própria label Smooth, para explorar caminhos fora do convencional, apostando em sons mais introspectivos e envolventes, como ele mesmo define. 

Smooth não é só uma gravadora, mas uma plataforma de projetos artísticos, que também realiza festas. 

Numa fase que reflete a maturidade de Pic Schmitz, adquirida em 30 anos de experiências, Smooth chega para expandir ainda mais suas fronteiras. A estreia ficou por conta da track “So Easily”.

Em entrevista ao GRVE, o artista reflete sobre a cena eletrônica e o papel do DJ, bem como sobre a evolução de sua carreira. Leia:

São 30 anos de carreira. O que o motivou a criar a Smooth neste momento?

Na verdade, Smooth não surgiu exatamente agora. Ele começou em 2013, como um podcast mensal, tendo a ideia de apresentar um som mais calmo do que a EDM naquele momento, algo que fosse mais suave, envolvente e que não cabia nas festas onde eu tocava naquela época.

Porém, nesses últimos anos, com todas as mudanças culturais que vêm ocorrendo, sinto que a música tem praticamente ficado em segundo plano. O som virou algo “embalado e pronto”, que todos já sabem o “gosto” que tem, se comunicando de uma maneira instantânea e rápida, sem realmente fazer o público “viajar” numa ideia ou conceito. E como nunca fui um DJ de entretenimento, de performance, que fala no microfone ou que usa outros artifícios para se conectar com o público. Pelo contrário, sempre abracei a frase “música conecta as pessoas” e sempre tentei, por meio dela, dela atingir as pessoas nas minhas apresentações. 

Eu precisava me reconectar com parte do público que também tinha esse tipo de entendimento do atual momento e, para isso, precisava mudar. Foi daí que veio a ideia de resgatar o Smooth não somente como um podcast, mas fazer dele uma marca que traduzisse essa sonoridade que conecta as pessoas através do som, fazendo dele uma label para o lançamento de músicas e também uma label de festas incorporando o conceito inicial do seu surgimento.

Bom, “So Easily” foi o primeiro lançamento. Por que a escolheu para estreia?

Entre algumas faixas que eu vinha produzindo, a “So Easily” é uma das que mais me agrada. E de certa maneira ela traduz esse momento meu em relação ao Smooth, pois fala do amor, como o que tenho pela música, de uma maneira fácil e suave, como é um dos conceitos da label.

Como foi o processo de produção? Ele reflete o título? Ou reflete algo da sua própria jornada?

A composição da “So Easily“ foi feita pelo Leonardo Cunha, que já tinha me apresentado outra faixa que lancei em 2024, a “Make It Right“. Mas a “So Easily“ bateu diferente em mim, de uma maneira mais pessoal, apesar dela não refletir uma experiência própria.

No processo de produção, após escutar a demo, achei que ela trazia uma estética mais retrô, algo meio anos 80 e eu, como adoro a sonoridade dessa época, busquei produzir algo com alguma influência dessa época.

Qual a visão estética e sonora da gravadora? Ela será casa para seus lançamentos ou também terá espaço para outros artistas?

O Smooth não é uma label de um único gênero musical, mas terá uma estética voltada para uma sonoridade mais introspectiva e envolvente, como era a ideia dos podcasts. Pode apresentar faixas house, melodic, progressive, entre outros, desde que a sonoridade traga de certa maneira uma contemplação.

Nesses primeiros lançamentos, até por eu ser o dono da marca, ele apresentará trabalhos meus, mas sem dúvidas pretendo em breve abrir as portas para outros artistas também lançarem os seus trabalhos. 

Aliás, você tem alguns sucessos em releituras de clássicos nacionais. Você pretende manter isso? Tem alguma outra faixa já em mente?

Eu gosto de fazer releituras de músicas que fazem parte da minha vida, que em algum momento me inspiraram, não só as nacionais. Até tenho bem mais trabalhos de releituras internacionais, mas as nacionais foram as que mais sucesso tiveram.

Eu não só pretendo continuar fazendo essas releituras como tenho algumas prontas para serem lançadas em 2026, umas de maneira oficial e outras como bootlegs. As próximas que serão lançadas são as faixas “How Soon Is Now?“ da banda inglesa The Smiths e a faixa “Love On A Real Train“ do Tangerine Dream.

Pic, você começou a ter experiências como DJ aos 13 anos. É uma longa jornada na profissão, desde as festinhas de amigos até os compromissos em grandes palcos. Como você enxerga essa sua evolução na música?

Comecei a tocar em festas bem pequenas na casa de amigos e cheguei a tocar em festivais e estádios para mais de 50 mil pessoas, o que mostra um caminho grande que foi trilhado. Passei por muitas fases e gêneros musicais que me moldaram não só como DJ, mas principalmente como pessoa, seja tocando pop e rock na adolescência, depois a dance music, a house music, o EDM e o deep house, o indie, o melodic/progressive. É uma evolução constante que me alegra por ter tido a oportunidade de vivenciar, pois a música é algo que sempre esteve presente na minha vida e poder me conectar às pessoas através dela, seja onde for, para quantas pessoas for, é algo mágico.

Foi através da música que tive a oportunidade de viajar pelo Brasil e pelo mundo, vivenciar culturas, fazer amigos, conhecer artistas que eu tenho como ídolos, estar em lugares onde nunca imaginei um dia poder estar. Enfim, é muito gratificante parar e olhar pra trás, ver que cada esforço, cada perrengue, cada conquista, valeu a pena.

Nestes mais de 30 anos sem dúvidas a minha maturidade musical foi se desenvolvendo. Tudo o que toquei e ouvi serviu de base, mas me sinto vivendo uma fase de certa maneira nova agora, numa sonoridade mais contemplativa e introspectiva. Não que eu não vá nunca mais escutar e tocar outras coisas que gosto e que fizeram parte da minha formação, mas acho que naturalmente a gente evolui, vai em busca de algo novo que nos faça feliz. E é isso que tenho buscado nesse momento com o Smooth.

Além disso, por ter essa bagagem de três décadas, como está enxergando a cena eletrônica atualmente? Acha que estamos num momento mais acessível tanto para público quanto para outros DJs, em termos de oportunidades e desafios?

A cena eletrônica me parece bastante cíclica. Tem momentos em que a criatividade na cena parece estar bastante aflorada, em outros parece tudo igual.

A música eletrônica está bem mais acessível a todos, isto é um fato. Não é mais algo tão nichado como era há algumas décadas atrás. Tem muitas festas legais acontecendo, DJs e produtores aparecendo por aí com trabalhos incríveis. Por outro lado com a popularização das tecnologias, fácil acesso às músicas, à produção, ao “ser DJ”, fez com que muita coisa acabasse perdendo a qualidade também.

Não quero generalizar, pois não acho que é o caso, mas infelizmente vejo que muitos produtores tratam a música como algo descartável, feita para obter o máximo de plays no Spotify, mas deixando a qualidade em segundo plano. O mesmo se aplica às apresentações dos DJs ao vivo, onde muitos se preocupam mais com a estética visual do que propriamente a entregar um set com profundidade. Mas entendo, por outro lado, que isso é um sinal dos tempos e que querer achar que está tudo errado não é o caminho correto. Se está assim e muita gente é adepta a isso, quem sou eu pra lutar contra? O que me resta é buscar o meu público, aquele que se identifica com o que eu gosto de tocar, com a minha sonoridade. Não tenho dúvida que todo DJ tem o seu lugar ao sol.

E o que ainda o motiva a seguir reinventando e criando, como, por exemplo, com a Smooth e a Smooth Sunset?

Pode parecer clichê, mas o que me motiva e sempre me motivou é a música e a conexão com o público. Ver uma emoção nova nas pessoas ao vivenciarem uma música, uma festa, um momento. Se consigo alcançar isso ao fazer um set, ao produzir ou tocar uma música, ao realizar uma festa, todo o resto como a satisfação pessoal, ter mais gigs ou a parte financeira se torna consequência.

O Smooth veio para tentar atingir isso, assim como novas ideias estão aí para serem descobertas.

It’s all about groove