Duas décadas depois de sua primeira experiência no lendário Stereo Montreal, Maxvei continua traduzindo a energia daquelas noites transformadoras em produções que trazem a essência do underground. O DJ e produtor franco-canadense construiu sua carreira de forma orgânica, desenvolvendo uma assinatura sonora única que funde afro house, tech e deep house com autenticidade na cena atual.
“Mad Thing“, seu retorno à Adesso Music lançado em 16 de janeiro, representa a destilação perfeita de sua experiência. É afro house orgânico, construído sobre percussões e grooves hipnóticos que refletem não apenas sua evolução técnica, mas também sua compreensão profunda das necessidades da pista. Em conversa exclusiva com a GROOVE, Maxvei fala sobre sua trajetória, influências e o que o futuro reserva.
Olá, Max. Obrigado por nos receber. Poderia começar nos contando como foram suas primeiras experiências com a discotecagem? O que te atraiu e te fez acreditar em seguir carreira como DJ?
Oi Groove, o prazer é todo meu. 2006 foi o ano em que descobri a house music, e também marcou minha primeira noite no Stereo Nightclub, o afterhours mundialmente famoso aqui de Montreal. Eu ainda lembro a data exata, 11 de novembro de 2006. Victor Calderone estava tocando, embora na época eu não fizesse ideia de quem ele era. Tenho quase certeza de que ainda guardo o flyer em algum lugar, haha.
Naquela noite tive uma sensação que eu nunca tinha experimentado antes. Foi quando tudo fez sentido para mim. A música, a conexão na pista de dança, a expressão coletiva de emoções através do movimento. A partir daquele momento, eu soube que queria estar do outro lado dos decks, compartilhando essa mesma energia.
Um mês depois, no meu aniversário, comprei meu primeiro kit de DJ, o Numark Battle Pack. Ele vinha com dois toca-discos, um mixer e um par de fones de ouvido. Na mesma noite, também comprei meu primeiro vinil, “Afterdark Volume Two” do Chus & Ceballos.
Você menciona Victor Calderone, Chus & Ceballos, Danny Tenaglia e DJ Vibe como influências. Como esses artistas moldaram sua abordagem musical?
Esses foram alguns dos primeiros artistas que vi no Stereo naquela época, entre muitos outros, então naturalmente a música deles teve uma enorme influência em mim. O que realmente me chamou atenção foi o fio condutor no som de todos eles. Tudo girava em torno da bateria e daquele groove profundo e tribal. Depois de cada noite, eu passava horas no Beatport tentando encontrar aquele disco que tinha explodido minha cabeça na pista. O Shazam, como conhecemos hoje, simplesmente ainda não existia (risos).
Curiosidade: Afro House nem sequer era uma categoria no Beatport naquela época. A maioria desses sons tribais era classificada como Progressive House. Esse som ficou comigo ao longo dos anos, e a percussão pesada continua sendo um elemento central tanto nas minhas produções quanto nos meus sets como DJ.
Montreal tem uma cena eletrônica muito particular. Como essa cidade influenciou seu desenvolvimento artístico?
A cena eletrônica de Montreal teve um papel enorme na formação de quem eu sou como DJ e produtor. Passei incontáveis noites e dias em lugares como Stereo, Piknic Électronik e Igloofest, apenas absorvendo tudo, observando os DJs, sentindo a energia do público e descobrindo como a música pode mover as pessoas de formas completamente diferentes.
Essas experiências me inspiraram a experimentar com sons, entender o ritmo em um nível mais profundo e desenvolver meu próprio estilo. A energia da cidade é realmente contagiante, especialmente no verão. As pessoas enlouquecem depois de ficarem esperando o inverno inteiro para poder festejar ao ar livre, haha.
Quando você decidiu que queria produzir suas próprias faixas?
No ensino médio eu já tinha interesse por música e produção. A primeira vez que mexi em um software de produção musical foi aos 14 anos. Eu fazia pequenos beats de hip-hop no Fruity Loops (hoje FL Studio) com um amigo, e a gente tentava rimar por cima, haha.
Passei a levar a produção musical mais a sério em 2012, quando mudei meu foco para a música eletrônica. Lembro de ter comprado meu primeiro iMac especificamente para instalar o Logic Pro 9. Lancei algumas faixas sob outro alias entre 2012 e 2015, enquanto ainda tentava descobrir meu próprio estilo e som — que no começo quase sempre sai diferente do que você imagina…
Falando em identidade, hoje seu som funde afro house, tech e deep house. Como chegou a essa combinação?
Meu som evolui naturalmente de acordo com o que estou ouvindo em cada fase. Uso o termo Afro House porque ele engloba Tribal e Afro Latin, que são os principais subgêneros do Afro que eu gosto de tocar e produzir. De vez em quando, também trago influências da minha fase Tech House.
Na essência, o groove é afro tribal e muito percussivo, mas certos elementos — seja o kick, a linha de baixo ou os synths — puxam mais para uma estética tech. Por isso, às vezes eu me refiro a esse som como Afro Tech.
Deep House é um gênero que eu não produzo muito, embora algumas das minhas faixas mais antigas tenham sido influenciadas por ele. Ainda assim, é um estilo que eu adoro tocar, especialmente em festas ao ar livre, ambientes mais relaxados, sets de abertura e momentos mais íntimos.
“Get Back” em 2023 trouxe reconhecimento internacional. E agora você retorna à Adesso Music com “Mad Thing”. O que pode nos falar dessa relação com o selo?
Sim, aquilo foi algo surreal. Mesmo três anos depois, ainda tenho dificuldade de processar completamente o que aconteceu. Nunca imaginei ouvir minhas músicas sendo tocadas por alguns dos artistas que me inspiraram ao longo dos anos. Desde ouvir “Get Back” em programas de rádio apresentados por Claptone, Bob Sinclar e Robbie Rivera, até ver Joseph Capriati tocá-la ao vivo no Sunwaves Festival, na Romênia, diante de 20 mil pessoas — são momentos que nunca vou esquecer.
Devo uma grande parte dessa jornada à Adesso Music, que é incrivelmente forte quando se trata de marketing e promoção dos seus lançamentos. Sem o trabalho que eles fizeram, duvido muito que minha música tivesse chegado às mãos desses artistas. Quando as coisas se acalmaram, eu sabia que queria voltar para a Adesso, só estava esperando a faixa certa. E aqui estamos 🙂
Um grande salve para Geoff, Dave, Hannah, Junior Jack, Pat BDS e todos os outros envolvidos, por me darem a oportunidade de brilhar no selo.
E como foi o processo de criação de “Mad Thing”? De onde a ideia inicial partiu?
Antes de começar “Mad Thing”, eu me sentia travado criativamente, reutilizando os mesmos padrões e hábitos de arranjo. Eu sabia que precisava sair disso. Então, nessa faixa, entrei completamente de mente aberta e me permiti criar sem pensar demais, o que foi extremamente revigorante.
Em vez de ficar loopando seções infinitamente e obsessivo com pequenos detalhes, foquei em construir a faixa de forma livre e deixei o refinamento para o final. Como resultado, “Mad Thing” ficou pronta mais rápido do que qualquer outra coisa que eu já fiz e abriu um processo criativo totalmente novo para mim.
Me senti inspirado por artistas como Bontan, Jesus Fernandez, Joeski e Manybeat, e essa influência moldou naturalmente o groove. Quando encontrei o vocal certo, tudo se encaixou.
Para finalizar, quais são seus planos para 2026? Já está com os objetivos deste ano traçados? Obrigado!
2026 já começou de uma forma enorme para mim. Recentemente, compartilhei um story no Instagram mencionando que acumulei mais streams no Spotify nos primeiros 20 dias de 2026 do que nos três anos anteriores somados. Ainda parece surreal, e estou extremamente orgulhoso disso. Trabalhei duro para chegar até aqui, e sei que ainda há um longo caminho pela frente, com muito a aprender, coisas novas para explorar e muito crescimento por vir. Pretendo seguir nesse caminho pelo maior tempo possível.
Muito obrigado pelo convite!
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