Por [Jon Facchi/Redação] [Tati Blanco/Revisão]
Fotos por Maira Dill e @gregogastald
A data de 14 de março de 2026 não será apenas mais um registro histórico do Warung Beach Club. Ela será lembrada como o dia em que o tempo parou na praia brava, em uma entrega sem precedentes, Hernan Cattaneo e Patrice Baumel protagonizaram o set mais longo já registrado na história do clube, em uma celebração que desafiou a resistência física e elevou o espírito de quem teve o privilégio de estar lá, com números impressionantes em várias frentes e que iremos explorar neste review.
Sold out histórico
O hiato na residência anual de Hernan em 2025 apenas alimentou o mito, o público sentiu bastante, porém ele sabia que segurar as expectativas iria gerar um resultado mais impactante em seu retorno próximo do final. O anúncio gerou uma onda de expectativa que culminou em um sold out histórico ainda em novembro, cinco meses antes do evento, não foi apenas um recorde de vendas de camarotes e ingressos; foi uma prova de devoção. Para retribuir, o mestre argentino preparou algo inédito: um convite para dividir as pickups e a decisão de iniciar a jornada ainda sob a luz do dia.
“Hernan sabia que segurar as expectativas iria gerar um resultado mais impactante. Funcionou: o público viveu um recorde que marca não apenas o clube, mas a própria carreira do DJ.”

Sunset to Sunrise
Se as manhãs esticadas de antigamente são hoje dificultadas por normas, a solução foi a antecipação. O desafio aceito: das 18h às 06h, Hernan, que já domina os all night longs pelo mundo, trouxe para o Warung a logística do entardecer, a garantia de sucesso? Uma invasão recorde de argentinos, que cruzaram a fronteira para ver seu ídolo em um formato de maratona raramente visto em solo brasileiro.
A alquimia por trás do B2B: Um convidado obscuro
Ainda em novembro após o anúncio do Sold Out, Hernan me escreve falando que existiria a possibilidade de tocar mais uma vez na última data do Templo. Com isso, minha cabeça explodiu, falei: “poderia trazer um b2b agora e deixar a última data só pra você’’. Ele responde: “pensei exatamente isso’’. Em fevereiro é anunciado o holandês Patrice Baumel, um dos destaques do Wday de 2025 e que inicialmente causou estranheza entre os argentinos, que gostariam de ver HC sozinho na casa. Para Baumel, seria talvez a maior oportunidade de sua carreira. Podemos também encarar como uma passagem de bastão, afinal, não existe validação mais forte e permanente do que trazer um candidato a ‘’ídolo’’ para se apresentar junto. Foi isso que Hernan fez quando escolheu Baumel para realizar uma das datas mais emblemáticas da história do Templo.
Patrice é respeitado e admirado na cena Progressive house, ainda que tenha um som muito particular que não cabe em rótulos. No Warung ele encontraria certa ‘’pressão’’, menos margem para ‘’testes’’. “Imagine você ser convidado por Hernan para dividir uma das pistas pesadas do planeta, com alguns olhares de ‘ok, me prove então que você merece estar aí’.” Era algo realmente de deixar qualquer um apreensivo. Porém, Baumel já conhecia o Warung, o clima, além de ser alguém muito tranquilo, que claramente acredita e confia na sua proposta musical.
Os argentinos
Historicamente muitos hermanos vêm ao templo para ver Hernan, afinal vir a Santa Catarina para eles é algo cultural; as famosas “vacaciones en Brasil’’ são pensadas todo ano, especialmente em Florianópolis. Porém, com a data sendo anunciada seis meses antes, deu tempo para muitos programarem suas férias para março.
Quando eu cheguei no Warung por volta das 17h15, de fato a grande maioria dos presentes eram eles. Muitos ali pela primeira vez, explorando e conhecendo cada canto. Preciso falar que eles respeitam demais o Warung, o reconhecem como o clube mais importante das Américas e valorizam poder ver Hernán por tantas horas em um local fechado. Vale mencionar que vieram pessoas de todo o mundo — EUA e Europa — para essa data, algo realmente impressionante.

A alquimia do B2B
“Mais do que um encontro de gerações, o B2B com Patrice Baumel permitiu que Hernan Cattaneo explorasse sua face mais densa e introspectiva.”
Eu me empolguei desde que o back-to-back foi anunciado. Afinal, já vi Hernan sozinho dezenas de vezes, e vê-lo dividindo o palco com alguém das características de Baumel me animou ainda mais, sabendo que o clima seria de obscuridade total.
Era a chance de ver o “Maestro” voltando às suas origens, sem se preocupar em agradar diferentes nichos de sua base de fãs. Em um longset convencional, HC costuma passear por tonalidades tribais, lisérgicas e alegres; porém, com Baumel, a direção foi outra: uma seleção de faixas densas, dramáticas e introspectivas. Foi, para mim, o reencontro com o DJ que conheci lá em 2010.
Vamos à noite!
Quando subi no backstage, faltavam 15 minutos para às 18h, horário previsto. Hernan não hesitou: colocou um som ambiente seguido por uma declamação de Alan Watts (pesquisem!), que casou perfeitamente com o clima soturno do fim de tarde e as nuvens brancas do lado de fora. Parecia que uma névoa pairava sobre o público, não poderia haver convite mais perfeito para a sonoridade que viria, o trato era só parar quando tudo estivesse claro de novo!
Não demorou para a pista encher. À medida que o sol caía, a dupla alternava em sessões de três ou quatro músicas, entregando um Deep House e Deep Tech extremamente sofisticado, com basslines marcantes.
Não posso deixar de mencionar 2 faixas muito importantes para minha formação. 16 Bit Lolitas – Deep Space Girls: track que faz parte do álbum Warung Brazil 2012. Ali eu percebi que o Baumel havia feito uma pesquisa musical do que tinha a ver com o clube. Outra que eu não esperava foi: Juan Deminics – Once Upon a Time (Guy J Remix), ela faz parte do álbum Balance do Guy e é uma das minhas músicas favoritas dele.
Fica até difícil eu começar a mencionar cada uma das faixas incríveis que eles tocaram, trazendo clássicos, coisas novas e outras antigas não tão conhecidas. Iria precisar de várias páginas de review para mencionar tudo, então abaixo selecionei as que considero destaques sonoros: (não em ordem na noite).
16 Bit Lolitas – Deep Space Girls
Juan Deminics – Once Upon a Time (Guy J Remix)
Klangstof – Hostage (Sasha Remix)
Underworld – Cowgirl (Id Remix)
Desire – Don’t Call (Gerber Remix)
Guy Gerber – Stoppage Time (Max Grahan x Anton Tumas Edit)
Gui Barone – Clutchy
Robert Babicz – Will It End
M.A.N.D.Y vc Booka Shade – Body Language (Patrice Baumel remix)
&ME – in your Eyes
André Moret – Coming Home (Leo Perez & Dhany G remix)
Kasper Koman – Diferent Plain
Alex O’rion – Black Out
Deep Dish – The Future of the Future (Stay Gold mix)
Le Carousel – Carousel (Phil Kieran Remix)
Obs: Quero acrescentar que havia um garden rolando excepcional e cheio com Anonimat, Kamilo Sanclemente por cinco horas e Zac fechando. Desci por meia hora ver Zac e o set estava excelente.
Imersão em sombras: O domínio do “Darkness” no main room
“Após as 22h, a iluminação baixou e o volume subiu, transformando o Templo em um santuário de hipnose e intensidade.”
Depois das 22h, o ritmo mudou. Hernan acelerou o passo enquanto Baumel encontrava faixas mais rápidas, embora mantivesse sua característica base linear, essa dinâmica gerou momentos de explosão na pista, invariavelmente seguidos por períodos de imersão total.
O Main Room estava propositalmente escuro; a luz dos icônicos lustres acima da cabine foi reduzida ao mínimo, criando um clima de “darkness total”. Quando o clube atingiu sua lotação máxima, o sistema de som recebeu seu último ganho de volume, e foi a partir desse ponto que a conexão entre público e artistas atingiu seu ápice.
“É como se fossemos colocados em uma cápsula do tempo, onde as horas são relativas e não existe nada além daquele momento.”
Normalmente permanecer tantas horas em um clube possa ser exaustivo, havia um acordo silencioso entre todos os presentes de que cada minuto daquelas 12 horas seria aproveitado. O corpo e a mente estavam preparados, tanto é que eu olhei o relógio 1 ou 2 vezes somente, simplesmente não importava.
A alternância de energia foi controlada com maestria pela dupla. Patrice Baumel demonstrou uma coragem imensa, preparando o terreno com precisão cirúrgica, muitas vezes tocando de olhos fechados. Ele construía a tensão necessária para que Hernan pudesse vir e arrematar a pista com sua capacidade inigualável de extrair euforia através de mixagens desconcertantes.

Por vezes observei Baumel com as mãos na cabeça aproveitando o momento enquanto Hernan se mantinha concentrado, como quem sabe que certos momentos da noite são chave, é preciso ‘’fazer a festa acontecer’’, tirar aquele gás extra das pessoas para que no final se sintam extasiadas.
Das 02h as 04h Hernán trás seu clássico momento de basslines bem pesados, aquela energia que sugava a alma de todos em meio ao calor. Isso foi uma verdadeira pista clubber, nem sempre será confortável, mas sempre será intensa, ninguém desiste.

Quando passou ao amanhecer outra remessa de clássicos vem para gerar comoção, “Body Language, Love Stimulation, Epika, Stay Gold…’’ porém quero dar três destaques que foram os que mais viralizaram pós evento.
“Only When I lose Myself’’ do Depeche Mode, remix clássico do Lexicon Avenue, uma das 10 maiores faixas de Progressive house de todos os tempos na minha opinião. Hernan havia tocado ela em 2016 também. Uma década é um número bom para repetições.

Outra vai já na sequência e é uma sacada genial de Baumel com “Coming Home’’ do brasileiro André Moret (Leo Perez & Dhani G remix), uma faixa de 2019, um daqueles lado B, que crescem com o tempo e foi simplesmente perfeita com aqueles raios amarelos de sol fazendo frente aos artistas.
E para encerrar o set Le Carousel – Carousel (Phil Kieran Mix & Kevin Di Serna Edit 2026). Kevin fez um retrabalho incrível nesse mix, incluindo um vocal e fazendo ela ser ainda mais especial. Hernan havia tocado o mix original por volta de 2016 e certa vez comentei a ele o quanto gostava dela. Pertinho de encerrar ele vira para trás e me aponta “es para vós’’. Bem, como diz o Dario Berrondo: nunca antes tive um ídolo!!

O Amanhecer: O Ponto Máximo da Jornada
“Após uma noite de imersão densa, a Praia Brava testemunhou um dos nasceres do sol mais cinematográficos da história do clube.”
Deixei para falar do Sunrise por último, pois acredito que ele foi o ponto máximo deste dia. Depois de uma longa noite obscura e densa, por volta das 05h30, já era possível ver aquele tom amarelado se formando lá no fundo, na linha do horizonte que corta o mar. Em um momento quase coreografado pela natureza, um navio de contêineres cruzou exatamente em frente ao sol; em poucos minutos, o vimos emergir por trás dele e acender de forma sublime.

Eu frequento o Warung há 16 anos e já presenciei muitos amanheceres icônicos, porém é raro o sol se apresentar dessa forma. Muitas vezes, ele só aparece quando já está mais alto; ver ele surgir diretamente da linha d’água não é tão comum quanto se imagina. Foi um lindo presente, afinal, o sol é o maior símbolo do clube, sua própria logomarca, e vê-lo surgir daquela forma…Mesmo quem é da “velha guarda” da casa se emocionou como se fosse a primeira vez.

Olhei para o Gustavo Conti ali do lado, incrédulo, as pessoas dançando como em um rito de adoração ao astro mais importante da vida humana, foi realmente um momento que vou levar para vida. Era para nos lembrar do porquê de tudo isso, do porque o clube foi construído daquela forma, do porquê resistir por tantos anos, tudo se resume aquele sol.

“O Warung encerra um ciclo histórico reafirmando sua dualidade única e batendo recordes de longevidade.”
O Warung possui essa dualidade intrínseca: a escuridão que te prende e o amanhecer que te liberta, trazendo vida. Saímos de lá pessoas melhores do que entramos. É muito realizador ver o clube caminhando para seus últimos passos com alguns dos melhores eventos de sua história, as pessoas que dedicaram suas vidas ao projeto do Templo realmente merecem isso.

Este não foi apenas mais um evento, foi o set mais longo já registrado no clube, um feito histórico reservado para este “sprint final”. “O Warung nunca morrerá, afinal, o sol da Praia Brava sempre nascerá novamente.”

Confira a seleção de faixas que marcaram essas 12 horas históricas na curadoria de Ana Track ID:
It’s all about groove