A carreira de Evan Michael foi construída a partir de experiências práticas na cena de Nova York. Antes de se afirmar como produtor, ele atuou como DJ e promoter, circulando por diferentes espaços do circuito underground e dividindo line-ups com nomes como Paul Kalkbrenner, Matthew Dear, Ross From Friends, Chaos in the CBD, JKriv e Fort Romeau.
Esse contato direto com a pista e com diferentes linguagens da house music ajudou a moldar uma identidade sonora que sempre esteve mais ligada ao deep e ao leftfield house do que às tendências melódicas mais evidentes do momento.
Ao longo dos últimos anos, esse caminho se refletiu também em seus lançamentos, com passagens por gravadoras como Cin Cin, Drumpoet Community, Culprit e Secret Fusion — selos conhecidos por uma curadoria focada em personalidade e, principalmente, consistência artística.
É dentro desse contexto que surge Dusk To Dawn, EP lançado pela gravadora brasileira Melodic Therapy. Em duas faixas, Evan trabalha estruturas longas, grooves constantes e uma abordagem que privilegia continuidade, dialogando diretamente com o universo do deep e do leftfield house e sua tradição.
Aproveitamos a novidade para conversar com Evan sobre o processo de criação do EP, sua relação com o estúdio, o impacto da vivência como promoter na construção do seu som e como ele enxerga seu espaço dentro da música eletrônica hoje.
Olá, Evan! Obrigado por nos receber. Dusk To Dawn chega pela Melodic Therapy em um momento em que seu som parece cada vez mais maduro e lapidado. O que esse EP representa dentro do seu percurso como produtor?
Oi, Groove! Obrigado pelo convite e pelo espaço. Esse EP representa muito uma virada para uma forma de trabalhar mais paciente e confiante. Depois de uma década imerso e absorvendo a densidade da cena de Nova York, eu quis encontrar um equilíbrio entre duas energias distintas.
Vejo as faixas como uma dualidade — um lado mais contemplativo e melódico, o outro com uma energia mais intensa de peak time — resultando em um trabalho que finalmente se alinha a um ritmo firme e intencional.
Você já comentou que as duas faixas nasceram após um ano focado em estudo e aplicação de novas técnicas no estúdio. Que tipo de aprendizado ou mudança prática esse período trouxe para sua forma de produzir?
Esse ano foi muito sobre tirar os excessos e focar em ser mais preciso — sair do simples empilhamento de sons para realmente refiná-los. Aprendi a chegar mais rápido em arranjos com os quais me sinto confortável e a reconhecer exatamente quando uma faixa já tem tomadas de instrumentos suficientes para estar pronta.
Na prática, isso significou lapidar sequências de melodias principais fortes e trabalhar tecnicamente com camadas de basslines. Também mudou meu ponto de partida: hoje começo escolhendo os drums e brincando com os padrões rítmicos como faísca inicial da faixa, garantindo que essa base esteja sólida antes de construir o resto.
Mesmo sendo frequentemente associado ao Melodic House & Techno ou ao Indie Dance, seu som dialoga muito mais com o deep e o leftfield house. Pode nos falar um pouco mais sobre essa construção de identidade e como você busca soar diferente do que geralmente ouvimos por aí?
Sempre senti que esses rótulos de gênero acabam sendo meio limitantes. Na real, eu só quero fazer um house mais profundo, com sensação de algo vivido — algo que provavelmente vem da minha bagagem com música ao vivo, rock e punk.
Para mim, identidade está muito ligada às imperfeições, como um synth que sai um pouco da afinação ou um padrão de bateria que ganha um swing natural. Tento fugir de sons excessivamente polidos e me apoiar mais em uma estética pé no chão, que tenha espaço para respirar.
Sua vivência como promoter em Nova York te colocou em contato direto com diferentes públicos, artistas e dinâmicas de pista. De que forma essa experiência ainda influencia suas decisões nos dias de hoje?
Ser promoter em Nova York foi uma escola gigantesca sobre o que realmente faz uma pista se mover. Isso tira a teoria da produção e coloca no lugar a realidade de como as pessoas reagem no momento. Essa vivência influencia totalmente minhas decisões até hoje — estou sempre pensando na tensão e no alívio de uma faixa e em como ela vai soar em um sistema grande às três da manhã.
Aprendi a confiar no instinto para saber quando manter um groove rolando e quando deixar um momento quebrar. Em vez de fazer música só no estúdio, eu escrevo pensando em um espaço físico e em uma energia específica, o que mantém tudo conectado à pista.
Você já lançou por selos como Cin Cin, Drumpoet Community e Culprit. O que faz uma gravadora “fazer sentido” para você no momento de escolher onde lançar? Como foi a conexão e a relação com a Melodic Therapy? O que te atraiu na proposta da gravadora?
Para mim, um selo faz sentido quando tem uma identidade clara e consistente. A conexão com a Melodic Therapy funcionou desde o começo; gostei muito da forma como eles se apoiam na cena de música eletrônica e usam a base que construíram através do canal CONNECT.
O que mais me atraiu foi essa ponte que eles criam entre elementos melódicos e uma energia mais crua, focada no club. Parecia que havia um espaço bem definido para faixas que são musicais, mas ainda têm certa aspereza — isso fez todo o processo parecer realmente colaborativo.
Hoje, depois de tantos anos circulando entre pista, estúdio e bastidores da cena, como você define o seu papel como artista dentro da música eletrônica contemporânea? O que é mais importante pra você nesse universo criativo?
Passei muito tempo nessa indústria como promoter, produtor, DJ e também como público na pista. Acho que isso me fez perceber que não tenho interesse em fazer algo excessivamente polido. Meu papel é manter o peso emocional sempre em primeiro plano. O mais importante para mim é criar músicas que tenham personalidade e caráter próprios, em vez de algo que seja apenas funcional.
Por fim, um espaço para suas novidades. O que podemos esperar dos seus trabalhos, projetos e movimentos? Obrigado!
No momento, estou focado em uma sequência de novos lançamentos previstos para o primeiro semestre do ano. Também acabei de finalizar um álbum que já está em andamento. Parece um passo natural dentro do som que venho explorando, e estou muito animado para ver como essas novas faixas vão funcionar no clube. Obrigado pelo espaço!
It’s all about groove