Quem não conhece Anderson Gonçalves provavelmente não encontraria um contexto para compreender o motivo de que, várias semanas atrás, em uma das noites que pisou em uma cabine de discotecagem diante de uma pista para soltar sua pesquisa sempre crescente de techno peak time, o DJ e produtor de 27 anos plugou nas CDJs um pendrive com um design que imita um teste de Covid-19. Tudo bem, a gente te conta.
Aqui entramos em um terreno interessante, uma história que só faz reforçar o poder da música eletrônica como uma força transformadora que vai muito além de gostar ou não de frequentar festas; é mais uma quebra da pequenez do pensamento conservador que volta e meia questiona se aquele pessoal que está na “festa rave” tem algum rumo na vida. Enfermeiro que lutou na linha de frente da crise pandêmica, Undercod encontrou na dance music o seu maior abrigo, um antídoto para o estresse. “Meu dia-a-dia está entre enfermos e música”, escreveu no Instagram.
Antes dessa bagunça que pegou o mundo todo de súbito e, infelizmente, tomou muitas vidas, a discotecagem para Anderson era um hobby. Mas ao se deparar com tamanha pressão vinda de um trabalho absolutamente essencial para aquele contexto, entre um break e outro Anderson abordou o techno como um exercício criativo, que viria, ainda durante as fases mais intensas da pandemia, a colocá-lo entre um dos fomentadores do underground da capital sul-mato-grossense, Campo Grande, como DJ e produtor, usando o nome artístico Undercod, e como agitador cultural também.
Campo Grande pode não vir primariamente à cabeça quando falamos em circuito techno, mas, pra quem ainda não sabe, foi lá que o D-Edge começou, nos anos 2000. “Quando eu era pequeno, jogava futebol geralmente aos domingos de manhã e, dentro da minha ingenuidade, ficava intrigado ao ver as pessoas saindo tão felizes de um espaço que tinha ali ao lado. Eram os clubbers saindo do D-Edge”, conta Anderson, rindo. Muitos anos depois, ele estaria curtindo a cena da cidade, imergindo na essência singular da dance music em clubs como o MOVE.
“Campo Grande já foi rota de festas e artistas de nível mundial. Isso começou lá atrás, com o Renato Ratier iniciando a D-edge por aqui, e isso fomentou a cultura clubber. Após isso, vários outros clubs surgiram e, na maioria das vezes, acabavam não durando muito tempo. Foi o caso do Move Club, Neo, Vita, entre outros”, lembra. “Como apoiador da cena comecei sendo promoter da festa Gate, encabeçada por um velho conhecido da cena campograndense, o Jay C, e isso foi muito antes de pensar em ser artista. Era apenas um frequentador assíduo que queria ver o club cheio para a galera curtir um techno de verdade”.
A virada de chave rolou assim que Anderson virou Undercod. Logo foi chamado para integrar o Technofighters, maior coletivo de techno do estado. Além disso, entre uma ou outra permissão protocolar da pandemia, tocou em festas e clubs como Secret Garden, Kafofo e Music Non Stop. Seu ânimo vital, carismático e participativo, o levou até a diretoria e a organização das festas do grupo. “Tenho paciência e sou persistente por natureza. De pouco em pouco, a gente vai mexendo e fomentando cada vez mais uma cena que já teve seus dias de glória e agora precisa se reerguer”. Spoiler: deu certo.
Em uma movimentação que surpreendeu até mesmo o padrão de pensamento otimista de Undercod, a Technofighters começou a viajar pelo país. Com um clima de reconexão praticamente histórico, no dia 20 de março deste ano o club de Ratier, já na capital paulista, é claro, realizou seu tradicional Superafter junto ao grupo. Anderson passou a experimentar as ruas de São Paulo com essa energia de conquista e reconhecimento, sabendo que mais tarde estaria ao lado de seus colegas de crew, Leichsen e Toulouse 84, nas cabines do D-Edge e seu poderoso sistema de som. A tour da Technofighters chama-se Techno is Magic e a ocasião ganhou até um aftermovie.
Todo esse espírito de fazer acontecer pode ser inspirador em diversas perspectivas. Tomar posições de liderança e perseguir um propósito pode intimidar muitas pessoas, mas muito da história da dance music esteve nas mãos de quem “foi fazendo” mesmo. Undercod está ciente de que está sempre se desenvolvendo enquanto permeia as experiências. “Uma vontade que tenho e que com certeza vou realizar é apresentar um live act de respeito para deixar as apresentações ainda mais enérgicas”, conta, enquanto celebra sua primeira produção autoral, a faixa “Discussion”, que estampa hoje o segundo lugar em vendas do selo que fez o lançamento, KLUBINHO, no Beatport.
A propósito, cá está o tal pendrive.
No Instagram: Undercod e Technofighters.